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Meu perfil BRASIL, Nordeste, SANTO ANTONIO DE JESUS, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Bebidas e vinhos, Livros |
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Ouvindo:
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EU
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...
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Depois de ter você...
Pra que querer saber
Que horas são
Se é noite ou faz calor
Se estamos no verão
Se o sol virá ou não
Ou pra que, que é serve uma canção
Como essa...
Depois de ter você
Poetas para que
Os deuses, as dúvidas
Pra que amendoeiras pelas ruas
Para que servem as ruas?
Depois de ter você...

Acreditar para mim é idealizar. Eu acredito nas coisas esperando o que elas talvez nunca venham a ser. Eu sempre vejo mais, me iludo mais e mesmo quando a cortina resolve despencar, por vezes fico pensando se o que vivi não foi um pouco da tal felicidade.
Ele e o outro dele

Era um rapaz solitário, do tipo dos que perdem a deixa da fala que marcaria suas vidas em troca de um minuto de silêncio. Quase nunca era percebido, evitava a todo custo o caminhos dos holofotes, preferindo a isto, o aconchego de recantos discretos e despovoados, onde as poucas pessoas existentes, não encontrando para quem se exibir, acabavam sendo mais elas mesmas, acanhadas em seus interiores, preocupadas com os desacertos da vida, com as contas vencidas, matando-se afogadas num oceano de sonhos loucos, irrealizáveis e dissimuladores da triste e opaca rotina. De tanto investir na prática da discrição, acabou virando um invisível, um ser acinzentado, detentor da habilidade de entrar e sair de qualquer ambiente sem despertar maiores atenções, vindo a sentir orgulho disso. Acontecia nas aulas, nas lojas, nas calçadas, onde quer que estivesse não cativava, não atraía a atenção, não era odiado nem amado, a não ser por uma certa meia dúzia de pessoas mais próximas que inevitavelmente tiveram a necessidade de conhecê-lo. De tanto se omitir, já não tinha mais formas, boca, dentes, olhos, um jeito de sorrir ou franzir a testa quando preocupado, um andar característico, uma maneira engraçada de falar, um jeito de vestir, de se virar, de interrogar as pessoas, de coçar o cabelo ou de transportar suas coisas. Era um rapaz indescritível, e dizê-lo seria uma tarefa por demais cara, mesmo para o mais apurado dos escritores. Não possuía voz, pelo menos ninguém se recordou de tê-lo ouvido dizer algo além do que alguns rosnados monossilábicos com os quais se comunicava com o mundo. Ninguém soube se cantava bem ou se era um bom orador, se era irresistível o seu sussurrar nos ouvidos femininos ou se era mesmo mudo, como alguns teriam arriscado. Ninguém o via, e isto parecia o encantar, ou talvez o tal encanto fosse apenas uma ostentação sofrida, conseqüência da vida numa atmosfera que lhe era completamente inóspita. Esta foi uma dúvida que consegui sanar, mas somente tempos depois, não convém esclarecer tudo de imediato.
Durante certo tempo me perguntei o que me fez notar a presença daquele pobre rapaz no dia em que ele passou por mim, cinza como uma nuvem chuvosa, mas o fato é que olhei para ele após uma profunda limpeza nos óculos e por fim aquele vulto já quase completamente desaparecido ganhou algumas formas. Foi na biblioteca pública. Acho que eu estava romantizado com algumas literaturas que falavam sobre pessoas letradas e vi naquele rapaz traços talvez de algum personagem literário, ou a quietude de uma pessoa aparentemente inteligente, ou mesmo a calma acolhedora dos que refletem o mínimo antes de falar. Bem pode ter sido também a sinergia, a conectividade, a atração que uma alma exerce sobre a outra quando nelas se constata alguma característica semelhante. Só não posso dizer que tenha sido mútuo, pois mesmo após minhas investidas ele continuou monossilábico, se tornando para mim uma espécie de objeto de estudo. Foi por esta época que percebi que estudávamos na mesma universidade, eu geografia, ele filosofia e fazíamos algumas disciplinas na mesma turma. Passei a observá-lo como quem vê num ser o potencial de um grande amigo ou conselheiro, não sei se por carência de minha parte, se por compaixão por ele, ou se pelo magnetismo já mencionado, e passei a sentar mais perto do canto da sala, buscando visualizar o que ele escrevia ou compreender o que pensava. Não obtive muito retorno nestas investidas, fato que aguçou minha curiosidade e foi justamente nesta época que, além daquele rapaz de cor cinza-escuro, entrou também na minha vida a Cristiane, esta demasiadamente iluminada.

Eram quase vinte e três horas, chovia e fazia frio. Caminhava em direção à casa dela com uma sensação gostosa a percorrer meu corpo: frio na barriga, coração a palpitar, uma boa dose de insegurança... Assumo, estava nervoso, afinal, seria a minha primeira vez com ela. Tínhamos nos falado uma ou duas vezes, umas ligações telefônicas, contudo o último contato, mantido durante a tarde, tinha sido crucial. Foi quando concluímos que se eu queria e ela também queria, não havia porque não se permitir. Meu corpo tremia conforme ia me aproximando do endereço, culpa do frio, da chuva, da minha ansiedade.
Vinte e três e alguma coisa, chego à porta. Não quis bater nem chamar, para não incomodar os vizinhos. Dei um toque no celular dela. Ela atendeu falando baixo e em sinal de cumplicidade dialoguei no mesmo tom. “Estou aqui, abre a porta”.
A porta abriu e eu entrei. La dentro, casa desarrumada, brinquedos espalhados, pedidos de desculpas, Maria Gabriela a dormir, e quando me vi estava sentado numa poltrona, sem saber se cruzava ou não as pernas ou onde colocava as malditas mãos.
- Ela te dá trabalho? – Arrisquei.
- Até que não, acorda a noite, mas é mais pra comer e conversar.
- Sei...
Pensava em qual seria o momento de agir. Em outras oportunidades tinha sido mais fácil, mas dessa vez era diferente. Eu numa poltrona, ela em outra, dois continentes sequiosos um do outro, separados por um mar de incertezas. Até hoje não sei bem quem fez o primeiro gesto (é bem possível que tenha sido ela), mas quando me dei conta estava a beijá-la a partir dos pés.
Tudo numa primeira vez é de certa forma estranho. “Será que ela vai gostar disso ou vai me achar um depravado? Devo fazer desta forma?”
Fui subindo aos poucos e já estávamos emaranhados na poltrona apertada, sentindo nossas respirações. Meio sem graça ela sugeriu irmos para o “quarto”, um espaço demarcado por cortinas que se esforçavam em nos separar psicologicamente do resto do mundo. Uma vez na cama, nos beijamos, nos despimos e em minutos inacabáveis cultivamos um calor que contrastou com a frieza das coisas estranhas à nossa unidade. De certo ponto de vista, não deixou de ser curioso conhecê-la pela primeira vez, e depois dos receios, lá estávamos introduzidos um no outro. Nosso ritmo se fez meio desengonçado e por mais que tenhamos tentado deixar transparecer algo diferente, com medo de magoar ou decepcionar, não escapamos do fato de que fisicamente éramos meros desconhecidos e, em razão disso, deixamos que um tom de carinho já existente sugerisse qual seria a nossa tônica. Tudo era estranhamente muito gostoso.
Por fim, chegamos lá, pelo menos eu cheguei. Nesse momento deitei ao seu lado e me perdi no teto, sem me preocupar muito com o que dizer ou fazer. Ela permanecia calada, mas me pareceu que tinha gostado. Virei para ela, aquele ser, aquele corpo, ansiando por meu carinho, mas não podia mentir, ainda era uma desconhecida. Nos tocamos, nos beijamos e na troca de carícias a volúpia novamente se fez presente, e dessa vez já foi bem melhor. O encaixe foi excelente e a sintonia do vai e vem se deu de forma mais entrosada. Ao meio do caminho, sussurros infantis. Ela me pediu pra parar e não tive escolha. Com uma das mãos, apontou para a cortina e já não estávamos mais sozinhos. Maria Gabriela acordara e queria brincar. Por enquanto se divertia sozinha, se mexendo no berço e emitindo gritinhos. Em poucos minutos sentiria fome.
Paralisado eu olhei para seu rosto e não consegui encontrar forma de reagir. Ameacei dizer qualquer palavra, mas seus dedos pousaram sobre meus lábios de forma maternal e dominante. Ela me tomou para si e me fez sentir novamente o seu querer. Em fração de segundos, voluntariamente abri mão do meu lapso de razão, mergulhando fundo naquele oceano de sedução. Queria aquela mulher, e de uma maneira visceral. Apertei aquele corpo com força e nele despejei o peso do meu. Beijei sua orelha e mordisquei seu pescoço, ameacei palavras obscenas, mas fui novamente calado pelo toque dos seus dedos.
Não havia porque nem como regressar. A hospitalidade daquele ser era o que mais havia ansiado nos últimos dias. Ainda não sabia se iria querer investir numa relação com ela, mãe de uma filha. Talvez desejasse somente uma noite e nada mais, contudo, isso ainda estava para além daquele momento no qual a musa com sua maturidade e olhar dominador, seios fartos, cheios de leite, era quem começava agora a mandar no jogo e ditava o ritmo das coisas.
Ela crescia ao passo em que eu me deixava dominar, adorando toda aquela sensualidade. Maria Gabriela a dois metros, com seus poucos meses, conversava com seu anjo da guarda, emitindo barulhos quase desestimulantes, mas já era tarde demais.
E nós continuamos, perseverando contra um mundo violento, insensível, que dia-a-dia oprimia os nossos sonhos, seguindo indiferentes à pureza que morava ao lado, desafiando aqueles que não viam mais o sentido e desejavam o fim de todas as coisas. Aquele momento era o nosso manifesto, nossa declaração de independência, e nós, enveredados no protótipo das oportunidades que ainda teríamos, trespassamos a madrugada entre gritinhos infantis e gozos indescritíveis.

Não sei por onde começar, mas tenho de dizer, de seguir um conselho de um professor que me alertou sobre o risco de se desenvolver um câncer, haja vista um acúmulo de tantas energias aqui dentro.
Ele me falou que eu também teria de ser chato e ruim, e que as pessoas que realmente gostam de mim saberiam compreender tudo isto. Alertou para o fato de que ninguém gosta de alguém que é perfeito, pois ninguém o é. “Eles vão usufruir, usufruir e sempre estarão por perto para usufruir um pouco mais, e você fará um esforço sobrenatural para acreditar que aquelas são as melhores pessoas do mundo. Mas, no entanto, vai se ver sozinho em meio a todos eles”.
Maldito seja!
A verdade é que tenho andado muito só e tenho me utilizado de sucedâneos a fim de não sentir dor. O inevitável é que o efeito destes “remédios” sempre passa e leva consigo alguma coisa: coragem, habilidade, criatividade, sensibilidade... é o preço que se paga por um instante sem pensar em nada.
Este é sem dúvida o pior momento intelectual da minha vida, quando paira uma sensação de que tudo o que há de bom na face da terra já foi devidamente absolvido e somente resta por fim, o fim.
Tentei fazer algumas promessas na virada do ano, mas achei que seria ridículo ou não tive coragem, algo assim. Antigamente eu desejava algumas coisas, mas as condições não me permitiam. Quis fazer por onde pudesse obtê-las, mas paguei um preço tão alto que agora que possuo meios de conseguir certas façanhas, não sei o que houve, estou me sentindo completamente fora do lugar, e acabo imaginando que bons são os lugares que sequer existem e boas são algumas pessoas que já morreram ou ainda estão por nascer.
Só restou viabilidade em se apostar no inconcebível, justamente pela questão platônica que nele há. Sinto saudades de mim, não sei onde me deixei ficar, em que bar, em
que micro aventura, ou me depositei em algum plano futuro tão distante que morrerei antes de vê-lo realizado. Não sei onde me deixei, mas sinto saudades e me quero de volta. É hora de fazer alguma coisa ou aquela história do câncer pode se tornar realidade.
Venho pagando para apenas ver o tempo passar, mantendo-me ocupado para não ter noção das coisas e sofrer o mínimo com isso, mas chega um ponto em que não consegue mais agüentar.
Algo tem de ser feito. Se realmente o será, estes escritos contarão.
O SEGUNDO QUADRO
A meio da noite um grito forte atravessou a aldeia. Depois ouviu-se o som de uma pequena barafunda; e a seguir um silêncio de morte. Tudo o que podia ser visto da janela era o ramo de um lilás dependurado imóvel e ponderoso no meio da estrada. A noite estava quente e inerte. Não havia lua. O grito fez com que tudo parecesse agoirento. Quem tinha gritado? Por que é que ela tinha gritado? Era uma voz de mulher, desencadeada pelo estado-limite de uma sensibilidade quase assexuada, quase inexpressiva. Era
Estava-se no escuro com o ouvido de prevenção. Tinha sido simplesmente uma voz. Não havia nada a relacionar com ela. Não veio nenhum tipo de quadro para a interpretar, para a descodificar. Mas quando finalmente o escuro se destapou tudo o que se via era uma forma humana obscura, quase sem contornos, erguendo em vão um braço gigantesco contra uma iniquidade esmagadora.

Tinha feito aquelas reflexões ainda no caminho de casa, e agora, desfrutando da preguiça que sua cama lhe proporcionava, decidiu pensar mais um pouco no assunto.
Não amava ninguém. E isso já vinha de algum tempo. Nem uma paixãozinha sequer, daquelas que promovem a desatenção das coisas e deixam as pessoas com cara de bobo. A vida aos poucos foi se tornando tão banal, as coisas tão pragmáticas, os desejos transformados em fórmulas tão facilmente conseguidas.
E falava baixinho:
“Meu Deus, o que ainda prende um homem à vida?”
Em resposta:
“Calma, ainda se sente algum prazer”
Mas até o prazer o preocupava. Tudo estava tão fácil, tão a mão que até o prazer se tornava diminuto. Não que a felicidade estivesse no não ter, mas talvez boa parte dela se encravasse no processo de consecução.
Como se apaixonar, se a maré das promiscuidades guiava seu barco à tantos caminhos distintos numa mesma viagem?
Antigamente primeiro vinha o namoro, o casamento e só depois o sexo. O prêmio por anos de luta talvez sequer fosse tão satisfatório, mas em compensação, padecer do cansaço da vitória era estimulante.
Vencida esta etapa, veio o tempo em que elas nunca “davam” na primeira noite. Era necessário um jogo de seduções que abria espaço para artimanhas mil. O resultado do esforço era um presente comemorado e re-desejado.
Quando isso se tornou passado, haviam aquelas modalidades proibidas. Somente os raros conseguiam ultrapassar as barreiras das novas convenções.
E depois? Depois veio o século XXI e essa coisificação das coisas.
Noite passada, ao final da segunda transa, quando ela perguntou “como é mesmo seu nome?” e ele sequer pôde recriminá-la por isso, já que também não sabia o dela, apesar de ser a terceira vez que saíam pra relaxar, a situação se lhe apresentou um tanto quanto perturbadora.
Olhava para o teto e dizia:
“Eu quero uma namorada, daquelas de antigamente, Quero sentir ansiedade novamente em minha vida”
Depois inventava mil desculpas para não querer mais aquilo e não saber mais o que querer.
Decidiu que não queria mais pensar sobre isso. Bem na hora em que o celular tocou.
“Oi”
“Claro”
“Na sua casa, sozinha”
“Já estou a caminho”
“Mil beijos bem distribuídos em você”
“Aliás, mais beijos em alguns lugares que em outros”.
Daquela vez seria diferente. Três longas horas de reflexão e ensaios haviam sido responsáveis pela elaboração de um discurso arrasador. Ela chegaria, entraria no quarto, e sem que lhe fosse permitida proferir uma única palavra, todas as frases seriam ditas, todas as possibilidades de escapatória seriam concretamente bloqueadas, e antes que a consciência sobre a situação pudesse trazê-la às bases da refutação, tudo estaria terminado, a caminhar a largos passos rumo ao arquivo morto.
Seria diferente daquela vez. Não mais se resignaria diante daquele beijo displicente, ritual de chegada e saída dos amantes. Aquilo tudo precisava ter um fim, e seria naquela tarde, para que quando a noite finalmente rompesse, trouxesse consigo toda uma gama de novas possibilidade e sensações já até mesmo esquecidas. Sequer lembrava como era estar sozinho. Aquela pessoa havia preenchido tanto o seu espaço, tomado para si uma quantidade tão grande de atenções, que ele já não lembrava de como era mesmo sua vida, seu quarto, seus gostos, seus momentos. Uma saudade de si mesmo o tomou de forma tão avassaladora que tornou indestrutível a convicção em relação a decisão a ser tomada.
Deitou-se na cama e deu continuidade aos pensamentos. A cada segundo a solidez de uma nova vida se lhe apresentava mais desafiante. Via diante de si estradas floridas, lotadas de banquinhos onde se podia sentar num fim de tarde e escrever novos poemas para novas leitoras. De olhos fechados, sorria para o novo gosto da felicidade.
A porta se abriu e ela entrou. Indiferente à sua presença, depositou sua bolsa sobre a escrivaninha. Parecia um pouco apressada. Tirou a blusa e a lançou no cesto de roupas sujas. Sem prestar atenção a algum detalhe, atravessou o quarto indo em direção à cama. Inclinou-se e num estalo o beijo de chegada já havia sido dado. Voltou à escrivaninha como que a procurar algum documento.
Ele a observou por todo esse tempo sem o mínimo esboço de movimento. Duvidou se era sentimento ou costume, mas independente de qualquer coisa, a certeza de por o fim continuava inabalada. Só não precisava ser ali, naquele agora, logo assim, tão perto do Natal. O ano seguinte lhe apresentaria por baixo umas trezentas novas possibilidades. Levantou e foi à cozinha beber um pouco de suco. Por hora, aquela conversa estava encerrada.

Trazes em teu ser aquilo que há de mais belo. És, inexoravelmente, a materialização da irretocável e antes utópica noção da perfeição, desde muito idealizada por grandes e infelizes pensadores que morreram sem te ver. Tens os traços de Deus, em teu garbo, em presença de espírito, no todo que te compõe e te faz superior às outras ninfas, as quais por consolo pouco resta além do canceroso gesto de invejar-te.
És minha Beatriz, e empenho-me a dizer-te que por teu amor, ou mesmo a simplória esperança dele, predisponho-me a percorrer os caminhos infernais, tal como o fez Dante. Possuis os traços enigmáticos de Helena, o dom de fazer dos homens todos teus, o poder de modificar o destino de um mundo.
Quantas guerras travaria por ti, minha adorada, tantas além desta a qual me engajei, de lutar contra os muros da introspecção, que incansáveis, investem contra esse amor que apetece mais que a tudo, ganhar o mundo, fazer dele o nosso leito, perpetuar-se em teu coração.
Anseio por ver-te em teu caminhar de anjo, vindo à mim, trazendo bordada em teu rosto toda a magia inebriante que terminará por arrebatar toda esta parca razão de meu viver. Deixa-me edificar o teu reinado, onde serás a implacável senhora dos meus dias, do meu trabalho, do meu futuro, a personificação da minha fé. Deixa-me ser teu, e não mais este ser desesperado, condenado ao purgatório das incertezas.
Sem mais,
"Era uma jovem que vivia no meio da história."
Depois mostro o resto.
“Era um jovem, que vivia no meio da história.”
O mais difícil já foi feito.
Já nos degraus da escada, voltou-se, entalou o monóculo, gritou para cima:
- Tinha-me esquecido dizer-te, vou publicar o meu livro!
- O quê! está pronto? exclamou Carlos, espantado.
- Está esboçado, à brocha larga...
O Livro do Ega! Fora em Coimbra, nos dois últimos anos, que ele começara a falar do seu livro, contando o plano, soltando títulos de capítulos, citando pelos cafés frases de grande sonoridade. E entre os amigos do Ega discutia-se já o livro do Ega como devendo iniciar, pela forma e pela ideia, uma evolução literária. Em Lisboa (onde ele vinha passar as ferias e dava ceias no Silva) o livro fora anunciado como um acontecimento. Bacharéis, contemporâneos ou seus condiscípulos, tinham levado de Coimbra, espalhado pelas províncias e pelas ilhas a fama do livro do Ega. Já de qualquer modo essa noticia chegara ao Brasil... E sentindo esta ansiosa expectativa em torno do seu livro - o Ega decidira-se enfim a escrevê-lo.
Devia ser uma epopeia em prosa, como ele dizia, dando, sob episódios simbólicos, a história das grandes fases do Universo e da Humanidade. Intitulava-se Memórias dum Átomo, e tinha a forma duma autobiografia. Este átomo (o átomo do Ega, como se lhe chamava a sério em Coimbra) aparecia no primeiro capítulo, rolando ainda no vago das Nebulosas primitivas: depois vinha embrulhado, faisca candente, na massa de fogo que devia ser mais tarde a Terra: enfim, fazia parte da primeira folha de planta que surgiu da crosta ainda mole do globo. Desde então, viajando nas incessantes transformações da substância, o átomo do Ega entrava na rude estrutura do Orango, pai da humanidade - e mais tarde vivia nos lábios de Platão. Negrejava no burel dos santos, refulgia na espada dos heróis, palpitava no coração dos poetas. Gota de água nos lagos de Galileia, ouvira o falar de Jesus, aos fins da tarde, quando os apóstolos recolhiam as redes; nó de madeira na tribuna da Convenção, sentira o frio da mão de Robespierre. Errara nos vastos anéis de Saturno; e as madrugadas da terra tinham-no orvalhado, pétala resplandecente de um dormente e lânguido lírio. Fora omnipresente, era omnisciente. Achando-se finalmente no bico da pena do Ega, e cansado desta jornada através do Ser, repousava - escrevendo as suas Memórias... Tal era este formidável trabalho - de que os admiradores do Ega, em Coimbra, diziam, pensativos e como esmagados de respeito:
- É uma Bíblia!

Olhava-o dormir. Exausto, feliz, tão seu.
Gostava de admirá-lo assim, despido, inofensivo, aconchegado em lençóis suados, distante, decerto a vagar no mundo dos amantes.
No santuário onde há pouco saudades haviam sido dilaceradas entre unhas, dentes, sussurros e gritos, emanava agora uma passividade introspectiva, onde o respirar tranqüilo daquele a quem amava proporcionava uma outra espécie de êxtase, elevando sua alma mulher a um paraíso de adoração.
Queria mais...
Conteve-se.
Sequer ousou tocá-lo.
Um sentimento egoísta passou então a sufocá-la.
Tão ali, ao seu alcance, e de repente, por quem respirava? Para quem aquele sono profundo, carregado de sonhos deixava escapar um riso amoroso ao canto dos lábios? Para si e somente para si?
O cair da tarde enegreceu o quarto e o canto de recolhida de alguns pássaros a resgatou do mar das incertezas.
Era o seu homem que estava ali, saciado e cansado.
Deixou de olhá-lo. Com todo cuidado deitou-se ao seu lado e relaxou. Também nua, acariciou seu corpo com suavidade. Fechou os olhos abandonando-se ao deleite. Sentia o cheiro dele, seu calor, seu arfar. Era seu e não o iria mais deixá-lo partir. Abriu os olhos, perdeu-se no teto e sorriu. Sentia-o dentro de si.
Quantos artistas
Entoam baladas
Para suas amadas
Com grandes orquestras
Como os invejo
Como os admiro
Eu, que te vejo
E nem quase respiro
Quantos poetas
Românticos, prosas
Exaltam suas musas
Com todas as letras
Eu te murmuro
Eu te suspiro
Eu, que soletro
Teu nome no escuro
Me escutas, Cecília?
Mas eu te chamava
Na
Palavras são brutas
Pode ser que, entreabertos
Meus lábios de leve
Tremessem por ti
Mas nem as sutis melodias
Merecem, Cecília, teu nome
Espalhar por aí
Como tantos poetas
Tantos cantores
Tantas Cecílias
Com mil refletores
Eu, que não digo
Mas ardo de desejo
Te olho
Te guardo
Te sigo
Te vejo dormir
Chico Buarque/Luiz Cláudio Ramos.

Acordou cedo, o quarto ainda estava escuro. Num repente, ao olhar para o teto, sentiu uma incontrolável vontade de sorrir. Uma sensação ingênua e gostosa invadia-lhe a alma, algo puro, dotado de cheiro e sabor, lembrava o espírito de natal perdido na infância.
Levantou sem muito esforço, o dia amanhecia. Andou um pouco espreguiçando o corpo, e foi encostar-se à escrivaninha, pequenina, feita de madeira enegrecida, sozinha, esquecida no canto. Puxou a cadeira e sentou.
Ascendeu a luz, tomou uma folha. Havia algo escrito, seria o frontispício de um maravilhoso poema que fora abandonado às profundezas da alma?
“Saudades do que não vivi”.
Fez-lhe bem a leitura do fragmento. Era como se sentia, meio que lembrando de seu tempo de criança, em família,
Virou a folha e rabiscou o verso...
“Toda beleza deve ser cultivada.
A inércia é inclinação ao vazio.
Transcendemos naquilo que fazemos.
Sentir para não inventar saudades.
Viver para não abdicar da vida.”
Pensou em quanto tempo havia durado sua morte. O belo não é involuntário, requer um mínimo.
Sentiu vontade de sonhar.
Deitou-se na cama. Voltou a dormir.

Mais um ano.
A morte ainda me persegue.
Se ocioso, inevitavelmente penso no fim.
Não posso parar.
Ela está no post dos 24, esse aí mais abaixo.
Ela está no post dos 25.
Eu tenho medo de morrer, não acredito em outras vidas.
Não posso parar.
Noite passada eu não parei...
Hoje será ainda melhor... não sei até quando irá durar.
Tenho de eternizar um orgasmo em minha vida.